Novos tempos
Luis Fernando Verissimo
Era preciso preparar o espírito da dona Aurora, para que o jantar não fosse um desastre. A velha matriarca ainda comandava a mesa familiar. Uma palavra errada dela poderia pôr tudo a perder. E daquele jantar dependia a fortuna da família.
Sueli, a filha mais velha, foi encarregada de preparar o espírito da dona Aurora.
- Mamãe, lembra da Jurema? A filha da Laurentina?
- Claro que lembro. Foi criada aqui em casa.
- Ela vem nos visitar, hoje.
- Manda ela vir me pedir a bênção.
- Ela vem jantar aqui, mamãe.
- Muito bem. Comida é o que nunca faltou nesta casa.
- Ela e o marido. Lembra do Odilon? A senhora implicava com ele. Chamava de Escurinho
- Não era por causa da cor. Não tenho nada contra preto. Mas sempre achei que a Jurema podia ter conseguido coisa melhor. Não era feia, aprendeu a cozinhar com a mãe, eu mesmo ensinei a bordar... Podia ter conseguido coisa melhor. Um comerciante, um escriturário... Mas não. Quis o Odilon. Um operário. E ainda por cima, escurinho.
- Ele hoje está num ministério, mamãe.
- Ministério? Da igreja?
- Do governo. Tem um cargo bem próximo do ministro. Coisa importante. A senhora não se lembra como ele simpatizava com o PT?
- Eu sabia que tinha outra coisa nele com que eu implicava...
- Fez carreira na política e hoje está no governo. Eles estão na cidade e nós convidamos os dois pra jantar, aqui, hoje.
- Aqui? Hoje?
- É. Ele pode nos ajudar, em Brasília. Deve se lembrar como nós ajudamos a Jurema no casamento.
- Ajudamos mesmo. Eu mesmo dei uma nota de cem. Eram cruzeiros ou reais? Não me lembro mais.
- O importante, mamãe, é como nós vamos nos comportar. Sei o que a senhora pensa dos novos tempos, mas temos de aceitar que as coisas mudaram. Certas coisas perderam o sentido e nós precisamos nos adaptar. Mesmo porque, é do nosso interesse. Podemos contar com a sua compreensão?
- Minha filha, eu nunca tive nenhum tipo de preconceito! Esta casa não foi sempre aberta para todos? Alguma vez nós negamos comida para alguém? A própria família da Laurentina não vivia comendo aqui? Volta e meia apareciam uns sobrinhos que ninguém conhecia e mesmo assim sempre ganhavam comida. Eu sei que os tempos mudaram. Só não sei se...
- O que, mamãe?
- O Odilon não vai se importar de comer na cozinha.
Da série poesia numa hora destas?!
1) Capitulação
“Delivery” até pra telepizzas é um exagero. Há quem negue? Um povo com vergonha da própria língua já está entregue.
2) Explicação
Promessas eleitorais não cumpridas, tanto por fazer e nada se move... O que esperar de um país onde a novela das oito começa às nove?
3) Definição
Sou um careta careta, careta sem solução. Dos que ainda usam “careta” pra descrever o que são.
Domingo, 5 de outubro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.